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Startups de IA abandonam promessas virais por tecnologia focada em receita

Empresas de inteligência artificial que antes apostavam em demonstrações tecnológicas impressionantes estão mudando radicalmente suas estratégias. Fundadores que desenvolviam desde fones de ouvido baseados em sinais neurais até criadores de apresentações virais estão recomeçando do zero, em uma corrida pela sobrevivência financeira e pelo faturamento real.

Do sucesso viral à estagnação financeira: O caso Tome

No início de 2023, a Tome, startup de apresentações fundada por Keith Peiris, era celebrada como a ferramenta de produtividade com crescimento mais rápido da história, atingindo 1 milhão de usuários em tempo recorde e chegando a 25 milhões posteriormente. O sucesso atraiu US$ 80 milhões de investidores como Lightspeed Venture Partners, Coatue, Greylock e o bilionário Reid Hoffman.

Entretanto, no final de 2024, Peiris constatou que o modelo de negócio era insustentável. A maioria dos usuários, composta por estudantes e pequenos empreendedores, utilizava planos gratuitos ou assinaturas de apenas US$ 10, resultando em uma receita estagnada de US$ 3 milhões anuais. Além disso, a ferramenta não conseguia penetrar no setor corporativo por falta de integração com dados estratégicos. “Para ser sincero sobre a Tome, nossa tese de tecnologia e nossa tese cultural eram muito imaturas”, declarou Peiris à Forbes.

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O surgimento da Lightfield e a regra das duas pizzas

Ainda com capital em caixa e capacidade de processamento de GPU, Peiris buscou conselhos com Stewart Butterfield (fundador do Slack e Flickr). Seguindo a orientação de Butterfield para recomeçar com uma equipe enxuta — a “regra das duas pizzas” —, Peiris encerrou a Tome em março de 2025, reduzindo o time de 70 para apenas seis colaboradores.

Oito meses depois, nasceu a Lightfield, um software de IA voltado para a produtividade de vendedores, automatizando tarefas como resumos de chamadas e e-mails de acompanhamento. Embora os investidores tenham inicialmente questionado a mudança para o setor de CRM, a empresa agora registra crescimento de 80% ao mês com 1.000 clientes pagantes, incluindo nomes como Substack e Goodfire. “Temos um time incrível, muito capital. Por que não tentar de novo?”, afirmou o CEO.

Adaptação no mercado: Fenômeno das pivots em IA

Diferente de pivots tradicionais que ocorrem no estágio inicial, startups de IA estão reformulando seus negócios após captarem volumes massivos de recursos. Aditya Agarwal, da South Park Commons, observa que a evolução rápida dos modelos de ponta força essas empresas a buscarem nichos lucrativos ou transformarem infraestruturas em spin-offs.

  • Pika: Captou US$ 135 milhões para geradores de vídeo e evoluiu para avatares e agentes de IA.
  • Poolside: Após captar US$ 620 milhões, dividiu-se em duas: a PIC (focada em infraestrutura) e outra dedicada a modelos, após o cancelamento do Project Horizon no Texas.
  • Character AI: Após enfrentar processos e uma “acqui-hire” do Google envolvendo seus fundadores, a empresa mudou para um modelo autofinanciado, focando em entretenimento interativo (áudio, quadrinhos e microdramas) e proibindo menores de 18 anos.

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Inovação contínua: Patronus AI e Wispr Flow

A Patronus AI, anteriormente focada na identificação de erros fáticos, redirecionou seus esforços para os “modelos de mundo digital”. Essas simulações para testar agentes de IA agora representam 70% de sua receita, atraindo grandes clientes e uma nova rodada de US$ 50 milhões, avaliando a empresa em US$ 400 milhões.

Já a Wispr AI demonstra que o pivot pode ser uma questão de sobrevivência. Após três anos tentando criar fones de ouvido neurais com US$ 14 milhões investidos, os fundadores Tanay Kothari e Sahaj Garg abandonaram o hardware. Eles lançaram o Wispr Flow, um software de ditado via IA que já conta com centenas de milhares de usuários diários. “Paramos de perseguir um sonho de ficção científica e começamos a construir o que as pessoas realmente precisavam”, concluiu Kothari.

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